Mensagens

A mostrar mensagens de setembro, 2020

A GUERRA

O grande guerreiro perdeu mais uma batalha. Nesta guerra que dura desde que nasceu, já ganhou e perdeu mais batalhas que a memória lhe permite recordar. Estas derrotas não são territoriais ou políticas. Este não é um inimigo comum. Não é um inimigo físico ou material. Não combate com armas. Não tem ideologias ou objectivos. É isso que mais frustra o guerreiro. Fosse o inimigo físico, trespassava-o com a espada. Mas cada derrota o aproximou mais de descobrir a natureza do inimigo e, mesmo sem o ver, começou a senti-lo. Começou a perceber que se o inimigo não é físico, a guerra também não. Se o inimigo não usa armas, não há necessidade de defesa. Se não tem ideologias, não há o que debater. Então que guerra é esta? Como é que o guerreiro perdia território cada vez que era derrotado em batalha? Como é que pode estar em guerra há tantos anos com um inimigo que, aparentemente, não existe? A derrota existe, é a única evidência que tem da existência de uma guerra. "Como existe uma guerra...

PASSADO E FUTURO

Ausência de pensamento, Essa que me escapa E que chega a ser tormento. Desejo fugir da azáfama E deixar-me estar só. E só estar. Estes conceitos temporais Que me impedem de me sentir E me obrigam a não parar,  São em parte culpados De eu raramente conseguir Estar só e só estar. O velho diz que é fácil, "É só um gajo não se preocupar", Mas ele dizer isso Ainda me preocupa mais E ainda me faz mais pensar E fica a mente num alvoroço.  Estou tramado.  Quanto mais penso,  Menos lógica tenho.  As regras dos outros não são para mim.  É que ao pensar de forma lógica  Encontro as falhas do velho,  Vejo na comédia a história trágica E na confusão vejo o espelho Que me impede de só estar.  De só ser. O velho tem dor no passado,  Mas consegue não pensar nela.  Tem no futuro o desconhecido,  Mas a mente dele não se rebela.  De onde vem a confiança Que usa como sentinela? E o controlo que lhe dá a paz De ser senhor e capataz do seu subc...

CARTA SEM DESTINATÁRIO

Imagino que pensei como seria Se acordasse e tu não estivesses cá. Se só cá estivesse eu. Será que, sem ti, o mundo mudaria? Provavelmente não para toda a gente, Mas com certeza mudaria o meu. E se, de repente, tivesse que escolher Entre lembrar-me de ti com dor Ou nem sequer te conhecer? Provavelmente escolheria a paz De nunca ter que saber. É que se imagino tão bem Como seria escolher, Provavelmente escolhi mesmo Nem sequer te conhecer.

O CAMINHO

O jovem pensador, de pensamento errante, Queria saber tudo quanto podia. E era, para ele, a questão mais intrigante Se era demorado o caminho para a sabedoria. O velho, sábio, conhecedor da questão, Decidiu dar a resposta complicada. O caminho para a sabedoria só depende da visão. E o jovem pensador não pensou em mais nada. Passou horas a fio Com a mente num corrupio, Não descansou Enquanto não percebeu. É que a resposta era críptica Mas a sua mente analítica Analisou E a resposta apareceu: Pensou então que seria Porque quanto mais via Mais sabia E o pensamento refinava. Não era só ver mais um dia, Era a própria mente que se abria, Enquanto fazia Como o velho e a alargava. A verdadeira questão Ia muito além da percepção Que antes tinha, Pela sua falta de senso. Nesse momento ganhou a noção, Que o caminho não era demorado, Mas que, na verdade, O caminho era extenso.

MONÓLOGO EM DÓ

Sai-me da cabeça que quero escrever sobre outro assunto! Ou pelo menos deixa que eu seja como o vento que tem autorização para te tocar na pele a qualquer hora. Trocava este corpo e tudo o que ele faz para ser só vento. Seria frio no teu verão e quente no teu inverno. Seria...  Não! Sai-me da cabeça que quero escrever sobre outro assunto! Estou cansado de escrever sobre as marcas que ainda não deixaste em mim. Sobre os beijos de que tenho saudades sem nunca ter tido. Sobre... Não.  Sai-me da cabeça que quero... Não quero, mas... Mas nada. Não quero escrever sobre outro assunto. Devia querer... Devia querer... Mas não quero. E mesmo que quisesse não conseguia. É que eu trocava este corpo para ser só vento.  Que se dane a inspiração e tudo o que dela vem. Que se dane tudo o que vem e que me inspira. Que se dane a vontade, a fome, o frio, o calor, a solidão, o amor...  Que se dane o amor... E tudo o que dele vem. É que eu trocava este corpo para ser só vento.