TEMPESTADE
O som da tempestade é o verdadeiro farol. É no abrigo dela quando, fraco, falho e range alto a caravela que o que calho a pintar na tela é a vontade de não parar. Que se parta o casco e rasgue a vela, que venha o carrasco que não a largo a ela, nem a vontade de me sarar. Que me falte sustento e visão, mas que tenha sempre alento à mão e esta vontade de respirar. Que perca o norte e o chão e que não me chame a sorte irmão nem o mar mais se faça ver, que eu pego na vela e no leme e monto os dois com a mão que treme de cansaço e resiliência. Mas mesmo que me falte a força, que de dor me contorça e não tenha mais por onde navegar, hei-de manter-me sobre o mar mesmo que me falte quase tudo, desde que não me falte a paciência.