CARTA DO ERMO
Preferia que me conhecessem só por estas linhas que escrevo de vez em quando. Que nunca me tivessem visto andar, rir, chorar... Que nunca me tivessem ouvido cantar, gritar, amar... Preferia que não tivessem nenhuma ideia de mim que viesse de algo que não estas palavras que junto de vez em quando. É que se é para terem certezas erradas sobre quem sou, ou quem fui, ao menos que elas sejam causadas pelo que lhes trago com as linhas e não com o meu eu físico desajeitado, impróprio e inadaptado à lei silenciosa. Desconsidero que tenham tantas certezas sobre o porquê de eu fazer algo de certa forma. Daí preferir que me conhecessem só pelo que escrevo. Ao menos assim talvez não me imaginassem a ter as reações deles. Não percebem que não penso como eles? Estarão tão focados no seu eu, que não vêm a complexidade existencial do ser humano com todas as suas ramificações? Somos percepção, preferência e crença. Mas eu preferia ser só imaginação, arritmia ou indiferença.