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A mostrar mensagens de agosto, 2020

O HOMEM EXPECTANTE QUE PENSAVA DEMAIS

Havia um homem expectante que expectava por vício. Não era grande falante e tinha pressa como ofício. Esperava, desesperava, e não sabia bem pelo quê. É que o que o homem esperava não é coisa que se vê. Enquanto esperava e desesperava ia olhando ao seu redor, À procura do que esperava, que era algo maior. Achava ele, porque na verdade não tinha sequer ideia, Que não encontrava o que procurava enquanto tivesse a cabeça cheia. O homem pensou várias vezes que seria melhor desistir É que viver assim à espera entre o chorar e o rir Não era grande feito, pensava ele, expectante. E pensava bem, que viver à espera é pouco significante. Houve então um dia em que teve uma revelação. Que veio por meio de um pensamento num dia de mais razão. Percebeu que esperar mas sem saber bem pelo quê, Só podia querer dizer que o que esperava, não se vê. Fechou então os olhos com uma esperança quase cega. E cerrou, em paz, os punhos numa profunda entrega. À espera que assim, finalmente, conseguisse perceber......

UM DIA (QUASE) IGUAL AOS OUTROS

O despertador tocou. Começou mais um dia igual aos outros. Mais uma vez o homem não sonhou, ou pelo menos se sonhou não se lembrava. Já era habitual não sonhar agora que os dias eram todos iguais. Já nem acordado sonhava. Às vezes lá acontecia, normalmente por influência exterior, o homem deixar-se levar por algum pensamento mais imaginativo. Mas nunca durava muito tempo, agora que o homem tinha muito que fazer. Não é fácil levar a vida sem sonhar. Mas foi ao que a vida o obrigou. O homem quando sonhava, não precisava de muito para começar. Bastava um pássaro a cantar, um cheiro, o riso de uma criança, um brilho de um sorriso ou de um olhar qualquer que se destacasse. Podia ser qualquer coisa, que não precisava de muito. Agora precisava. Agora já lhe custava sonhar, mesmo que se esforçasse. Tinha que ser algo que tivesse um enorme impacto em tudo o que fizesse. Já não sonhava por coisas pequenas, mas sim por algo grande que o fizesse, nas coisas pequenas, encontrar inspiração para sonh...

ARRITMIA

Ainda não! Já vais tarde! Mais depressa! Mais devagar! Como pode o jovem entediado Entender o ritmo de amar? O jovem entediado, Tem tanta pressa de amar Como preguiça de entender Que não há tempo nem lugar, Nem quem lhe dê parecer, Favorável à conclusão, Que provavelmente nunca vai ter, Que o ritmo de amar É o mesmo que de esquecer. O jovem que, entediado, Viu a cor morrer E se deixou prostrar Porque deixou de crer Que seria de volta sua A capacidade de ver. Mas o jovem entediado, Que, por entediado ser, Perdeu com agrado A vontade de comer,  Deixou-se mergulhado Na mentira de ser O jovem entediado. É que o jovem entediado Era na verdade O velho cansado Que, apesar da idade, Continuou sem entender Que o ritmo de amar É o mesmo que de esquecer.

SER METADE

Sou cru. Sou espírito vestido em corpo nu. Sou desequilíbrio interpessoal. Sou resultado de ausência emocional. Sou vontade de não ter vontade. Sou parte inteira feita metade. Mas, Fui tudo. Fui espírito cheio sem escudo. Fui razão de ser essencial. Fui arquitecto emocional. Fui vontade em amplitude. Fomos, por inteiro, plenitude. Mas, Quero ser levado. Quero ser espírito nu e corpo cansado. Quero ser equilíbrio intrapessoal. Quero ser origem de emoção espiritual. Quero ser razão de ter vontade. Não quero ser metade! Não queria ser metade...  Talvez só queira ser metade. 

ASSENTAR OS PÉS NO CHÃO

"Desculpe, sabe-me dizer a que horas passa aqui a consciência?" "Não sei não, que aqui não me preocupo com iminência." "Não percebo mas tenho pressa, com certeza terá ideia se passará evolução." "Nem ideia, nem tão pouco noção, Peço-lhe por isso o meu perdão, mas escolho viver em tal simplicidade Que não me ocupo nem com metade do que me ocuparia se, na verdade, Tivesse tal pretensão que vossa excelência parece ter do alto da sua posição." "Mas que posição? Só queria planear os eventos que se passarão!" "A posição de não ter a mínima noção de que nos eventos que se passarão não tem o que dizer. Não se preocupe então e sente-se aqui que eu peço-lhe uma para beber." "Não consigo, não posso parar! Tenho demasiado para fazer, demasiado em que pensar!" "Homem, tenha lá calma e puxe uma cadeira para se sentar, Que você faça o que fizer daqui nunca vai arredar E é por isso que mais vale nem se preocupar Que o que tem p...

POEMA DO GAIATO DESLUMBRADO

A tua tão fixe cena Foi a cena que me fez esquecer Que a saudade era tão pequena  De ter alguém e alguém me ter. Pois essa tua complexa cena Foi a cena que me fez perceber Que a vida simples é uma pena E que nos faz o tempo esquecer. Por isso gosto da tua cena. Porque foi a cena que me fez ver Que o tempo perdido é um problema Que nos faz a alma perder. Portanto levantei logo a antena Quando a tua brutal cena Se tornou num problema Porque a minha cabeça armazena Desejos de contracena E vontades de cantilena, Desde que há uma quinzena Conheci a tua tão fixe cena.

O LAMECHAS

Sem te conhecer reconheci Que sem te conhecer conheci Quem eu sem conhecer muito de ti Reconheci em ti o que sem te conhecer perdi. Ao ver esses sinais na tua face, Percebi que quer, ou não, gostasse E por mais que eu desejasse, Esses sinais não eram meus. Mas sim de quem amasse Os sinais que na tua face Mapeassem o repasse Que por prazer eu sonhasse. A verdade é que na tua alma, Com toda e mais alguma calma Eu vi que não havia vivalma Que compreendesse a tua dor. E nisso eu tive a certeza, Que por mais forte a tua fortaleza, Em mim nunca terias a tristeza Que o tempo te fez sentir. Por isso mulher, sente a firmeza Que o meu coração com destreza, Viu que no interior da tua beleza, Não havia razão para temer. E que com, ou sem, tua vontade, Eu saberia que a verdade Iria além da indignidade De muito cedo te querer. Porque em ti vi os sinais, Que por não serem banais Foram exactamente os tais Que me fizeram reviver. 

SOL

Ela brilha como o Sol.  Ela brilha como se soubesse que ela brilha como o Sol.  Como se do meu olhar ela viesse.  Ela brilha com tal presença,  Que é impossível ficar impar ao que o Sol sente como recompensa  Ao ver nela razão para chegar.