UM DIA (QUASE) IGUAL AOS OUTROS

O despertador tocou. Começou mais um dia igual aos outros.

Mais uma vez o homem não sonhou, ou pelo menos se sonhou não se lembrava. Já era habitual não sonhar agora que os dias eram todos iguais. Já nem acordado sonhava. Às vezes lá acontecia, normalmente por influência exterior, o homem deixar-se levar por algum pensamento mais imaginativo. Mas nunca durava muito tempo, agora que o homem tinha muito que fazer. Não é fácil levar a vida sem sonhar. Mas foi ao que a vida o obrigou. O homem quando sonhava, não precisava de muito para começar. Bastava um pássaro a cantar, um cheiro, o riso de uma criança, um brilho de um sorriso ou de um olhar qualquer que se destacasse. Podia ser qualquer coisa, que não precisava de muito. Agora precisava. Agora já lhe custava sonhar, mesmo que se esforçasse. Tinha que ser algo que tivesse um enorme impacto em tudo o que fizesse. Já não sonhava por coisas pequenas, mas sim por algo grande que o fizesse, nas coisas pequenas, encontrar inspiração para sonhar. E é normalmente por influência exterior que voltamos a sonhar. Ele já há muito que não sonhava por não encontrar razão para o fazer.

Neste dia que começou, como qualquer outro, com o despertador, o homem acordou, contemplou a sua existência repetitiva durante os minutos que reserva para se lamentar por não ter, mais uma vez, sonhado e repetiu o ritual de sempre. Sem magia, sem cor, sem música e sem calor. Não que o homem fosse cinzento e frio, porque não o era. Mas com a idade o homem perdeu a capacidade de sonhar sozinho. E era por isso que ele mais ansiava, por voltar a conseguir sonhar sozinho. Já tinha voltado a sonhar muitas vezes depois de criança, normalmente por influência exterior, mas o que o fazia, aos poucos, deixar de conseguir sonhar era precisamente essa mesma influência exterior. E por isso o homem foi perdendo a capacidade (ou a noção) de conseguir sonhar sozinho. "Se é para isto prefiro não sonhar." repetiu ele vezes sem conta até interiorizar esse pensamento tão adulto, tão castrador, tão casmurro. Em tudo o que fazia punha involuntariamente esse pensamento que era já um mantra com que o seu subconsciente alimentava a sua consciência.

O dia prosseguiu como já era habitual. Com os rituais do costume, com as conversas banais do costume, com as interacções do costume, umas mais chatas, outras mais alegres, mas sempre sem magia, sem sonhar. O homem já estava tão habituado que não se considerava infeliz com a sua existência. "É o que há cá!" dizia muitas vezes em tom de brincadeira. Mas a estagnação precisa de uma revolução para evoluir e enquanto o homem estivesse conformado, provavelmente não voltaria a sonhar. Como a natureza é orgânica e é anti-natura não sonhar, seria impossível o homem manter-se nesta situação muito mais tempo. E seria neste dia que ele teria uma revolução que não o iria deixar ter mais um dia igual aos outros. O homem não fazia ideia do que o esperava e foi por isso que o impacto que veio, como seria de esperar, de uma influência exterior abalou a conformidade em que vivia. O impacto foi tal que desta vez o homem ficou tão inspirado que voltou a ter capacidade para sonhar sozinho. Pode ter sido pela sua própria experiência ou pela natureza da influência exterior, isso ele nunca vai saber, mas o que é facto é que o homem conseguiu novamente sonhar nas mais pequenas coisas. E esse sonho agora era o sonho só dele. E ele nunca iria esquecer essa influência que se tornou interna por lhe ter dado não só a capacidade de sonhar, como a capacidade de sonhar mesmo que a influência deixe de o ser. E não há melhor influência que essa.

Consta que ainda hoje o homem acorda a assobiar a canção do despertador.

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