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A mostrar mensagens de março, 2021

À NOITE

Acabei de jantar. Tenho uma longa noite pela frente, sem horas, e por isso ponho água a ferver para o café. Sem pressa. Enquanto espero que ferva sirvo-me de mais um porto. Hoje é para relaxar. Feito o café, sento-me a observar. Tudo o que é e todos os que são vão morrendo enquanto bebo o meu café e o meu porto. Porra... Mas o que posso fazer além de observar? E, se não posso fazer nada, mais vale relaxar. Há quem já tenha ido há tanto tempo  que já nem me lembro do nome ou da cara. Há coisas que já desapareceram há tanto tempo  que já nem me lembro do que eram. Há coisas que morrem com as pessoas  e pessoas que morrem com as coisas. Se calhar eu mesmo já morri  e é por isso que me sinto apenas observador na maior parte dos dias e em todas as noites. Mas as noites são mais longas  e permitem relaxar. Isto até pode ser só um sonho. Enfim, já acabei o café.  Vou beber o meu porto enquanto imagino se alguém me observa morto.

D. TEMPO, O SEM CORAÇÃO

O homem não se expressa. O homem é a expressão Do que, peça a peça, Traz ao homem emoção. Mas não expressa o amor?  Nada mais que o sabor Da dor com que laiva De raiva o amor Que cura a raiva Que traz o ardor Com que ama e odeia, Nem sempre só por si,  Mas sempre pela odisseia.  Por mais que eu sinta, E não é que minta,  Mas o homem não se expressa.   Serve, no final, de canal Ao que sem bem nem mal, Lhe faz cada peça. Desengane-se então Quem acha ser mais Que o que faz sem perdão. E não, Não sou mais que a expressão Que, sem querer, soltarão Os homens e mulheres que morrerão Na ponta da faca sem mão Que é o D. Tempo, O sem coração.