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A mostrar mensagens de fevereiro, 2021

PRAÇA ANTIGA

Final de tarde. Praça antiga. Um velho chega cansado e senta-se sozinho num banco de jardim. "Já viste onde chegámos? Lembras-te? Foi ali que te vi pela primeira vez. Estavas sentada naquele banco ao lado da roseira enquanto esperavas pacientemente que a tua mãe acabasse de pôr a conversa em dia com as senhoras depois da missa. Tinhas aquele vestido azul que uns anos mais tarde mandámos reparar para dar à filha da vizinha. A roseira já não existe, morreu há anos. E onde estava o banco onde te vi pela primeira vez e onde mais tarde te pedi em namoro, está agora uma máquina de tabaco. Se conseguisses ver o que fizeram ao jardim… Não ias gostar. Mas também não te ias irritar. Nunca te vi irritada com nada. A maior montanha deste planeta vivia no corpo da flor mais delicada, ambas em comunhão. É por isso que ainda hoje te admiram. Tinhas sempre carinho para toda a gente. E ai de que faltasse alguma coisa a alguém!  Mesmo quando estavas a sofrer, consolavas-nos para que não chorássemos...

POESIA?

Para saber explicar poesia tinha de saber pintar, que escrever não chega. Ou talvez ser um génio da filosofia, que encontre por força da lógica uma forma de a explicar. A mim parece-me que não tem explicação, mas que sei eu? O que é facto é que se estuda poesia. Mas será para encontrar o significado dos poemas, ou para encontrar, nos poemas, o nosso significado? Quando eu leio, não procuro a intenção do poeta, mas que sei eu? Não me parece que a poesia seja uma ciência em que tudo seja feito por um motivo e tudo tenha uma razão. Como é que se escreve um poema? Qual é a motivação? Será um amor perdido motivação para o poema, ou será a poesia motivação para um amor perdido? Imagino que um poeta tenha uma maior propensão para sofrer e para se alegrar facilmente, guiado pela poesia. Imagino que a poesia seja como um ser etéreo que usa o poeta para que consiga experienciar o mundo material e o poema seja a sua manifestação física. Mas que sei eu? Talvez a poesia seja tudo isto, talvez não. ...

É para o infinito que deserto,  Onde não posso estar nem longe nem perto. Não posso estar nem fechado nem aberto. Lá não há vida nem morte. Não há chão, não há norte, Não há poder, não há sorte. Onde não há corpo, não há fome. Não há razão que me tome No lugar onde não há nome. Não há território nem nação. Acho que nem há coração Onde nem sequer há sim ou não. Lá, sentir é inconcebível. Não há maravilhoso nem horrível Onde tudo é impossível. Não serei feliz quando lá for Porque lá não há amor.  Mas mais importante, porque lá não há dor.