À NOITE

Acabei de jantar.
Tenho uma longa noite pela frente, sem horas,
e por isso ponho água a ferver para o café.
Sem pressa.
Enquanto espero que ferva sirvo-me de mais um porto.
Hoje é para relaxar.
Feito o café, sento-me a observar.
Tudo o que é e todos os que são
vão morrendo enquanto bebo o meu café e o meu porto.
Porra...
Mas o que posso fazer além de observar?
E, se não posso fazer nada, mais vale relaxar.
Há quem já tenha ido há tanto tempo 
que já nem me lembro do nome ou da cara.
Há coisas que já desapareceram há tanto tempo 
que já nem me lembro do que eram.
Há coisas que morrem com as pessoas 
e pessoas que morrem com as coisas.
Se calhar eu mesmo já morri 
e é por isso que me sinto apenas observador
na maior parte dos dias
e em todas as noites.
Mas as noites são mais longas 
e permitem relaxar.
Isto até pode ser só um sonho.
Enfim, já acabei o café. 
Vou beber o meu porto
enquanto imagino
se alguém me observa morto.

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