Ali vai um poeta. Leva a mente inquieta E o bolso vazio. Tem mais que eu, no entanto, Que eu, por ter tanto, Sou vela sem pavio. O poeta-pintor, Que morreu de amor, Fez da tinta poesia. O que moldou o granito, Mostrou, sem ter dito, Que há na dor cortesia. Há o bardo sem fala, Que traz o som numa mala, E abre guerra ao silente. E eu, que colecciono ouro, Faço do mundo matadouro E tento calar quem sente, Não percebo que é infinita A fome que me grita Para que seja também poeta, Pinte a mágoa não dita, E esculpa da dor a bonita Canção que me inquieta.
Se existem poetas felizes, estão mortos. Ou ainda, se existem poetas, estão mortos. Um poeta é-o nas circunstâncias certas para o ser e nenhum o é, ou foi, toda a vida. Um poeta só é poeta enquanto se sente inspirado a escrever poesia. Ou um músico pode chegar a tocar poesia quando entra num tal modo que deixa de ser instrumentista e passa a ser parte do instrumento. É possível reconhecer esses momentos num músico, mas não num poeta. Para isso era preciso estar dentro da cabeça do poeta e sentir com o seu coração. Ser poeta não é sobre o poema, mas sobre o caminho para lá chegar. Por isso um poema pode até ser feliz, ou alegre, mas o poeta não.
Quando um homem morre, não morre só um homem. É que quando um homem morre, um número incontável de diferentes homens morrem com ele. Morre o irmão, o pai e o filho. Morre o colega de escola, o companheiro de guerra e o amigo para a vida. Morrem promessas por cumprir, sossego e abrigo. Morre o senhor que diz bom dia, obrigado e até depois. Morre um passou-bem, um pedido de perdão e um abraço. Morre um silêncio confortável, um jantar e um café. Morre uma flor, uma canção e um amasso. Quando um homem morre, morrem muitas guerras, mas também morre muita paz. Quando um homem morre, não morre só um homem. E há quem perca mais que a vida, porque a vida não é tudo. E só quando morre um homem é que se descobre isso. É que quando um homem morre, um número incontável de diferentes homens morrem com ele. Mas mesmo quando um homem morre, é raro que desapareça. Sobrevivem-lhe as ideias, lutas e sonhos. Sobrevivem-lhe todas as memórias de todas as pessoas com quem se cruzou. Sendo assim, s...
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