NÃO SEI BEM O QUE SOU

Não sei bem o que sou.
Não sou bem o que sei.
 
Tenho o maior mistério da minha existência, o que menos compreendo, dentro de mim.
 
As regras não me servem.
Não me servem, assim como não as sirvo.
Existo independente delas.
Conheço-as e reconheço-as mas não existo em sua função.
Não as renego, mas também não me entrego ao seu domínio.

Isto dá-me liberdade para ser, sem bem me conhecer. 
Não digo que não me conhecendo, não sei quem sou.
É a fuga a esta convenção que mais me identifica.
Sei quem sou porque não me conheço.
Sei que sou o que penso, que muda a cada interação que tenho, seja comigo mesmo ou não.
Só assim existo em comunhão com a passagem do tempo.
Caso contrário estaria a lutar contra a constante erosão que ele nos causa.
Luta impossível de vencer.
Podemos lutar contra a percepção de um conceito, mas nunca contra o conceito em si.
Um conceito é algo transcendente e imutável.
A nossa percepção é passível de mudança.

Contradigo-me então ao dizer que as regras não me servem.
As regras com que discordo servem para que desenvolva as minhas, que servem para ser refutadas. Muitas vezes por mim. 

Não me importo com o paradoxo do meu pensamento.
É por isto que digo que me identifico ao não me conhecer.
Identifico-me sempre na capacidade de mutação e nunca na incapacidade da resignação.
Identifico-me na procura, na dúvida, na eterna questão sem resposta.

É quando acredito que me conheço bem que falho em ver que de mim só sei o que fui até ao início desta frase. Ou desta fase. 

Sei mais do que sou.
Sou mais do que sei.

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