CONTEMPLAÇÃO
Quem me dera ser capaz de viver só por contemplação.
Não querer pertencer, nem agir, nem participar.
Só contemplar.
É como querer ser capaz de viver sem a necessidade de comer.
Gosto de comer, mas gostava que não fosse uma necessidade.
Que não houvesse o reverso da medalha, o "se não comes, definhas".
Gosto de amar, mas gostava que não fosse uma necessidade.
Que não houvesse o reverso da medalha, o "se não amas, não vives".
Vem daí a vontade de querer ser capaz de viver só por contemplação.
Que seja suficiente para mim que outros se amem, que outros sejam felizes e se sintam realizados.
Gosto de ser feliz e de me sentir realizado.
Mas não gosto do reverso da medalha.
Penso que poderá não ser uma medalha equilibrada, esta.
Tudo me desperta curiosidade, mas o preço é demasiado alto quando temos esta natureza.
Se tudo é efémero para toda a gente, imagina o que sente alguém cujo interesse nas coisas é, ele próprio, efémero, mas ao mesmo tempo tão intenso e temporariamente eterno como a paixão.
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