SOLIDÃO
Procuro na dormência um lugar solitário onde possa não existir por momentos.
Onde ninguém sinta rancor com coisas que nada têm de rancor.
Onde ninguém ame com coisas que nada têm de amor.
Onde ninguém espere de mim o que esperam, na verdade, de si mesmos.
A minha vontade de isolamento não vem da vontade de estar sozinho, mas sim da necessidade de fugir à tensão que é ser gente no meio de gente que não percebe que somos todos gente normal e defeituosa.
Qual é o mal disso?
Deixem lá a perfeição para os deuses que não existem.
A cada dia que passa percebo melhor que o que exijo dos outros serve apenas para colmatar as minhas próprias falhas.
No fundo queremos todos sentir que somos algo de importante e infalível, mas será que somos tanto quanto pensamos?
E aquelas pessoas que se sentem mal porque pensam não valer nada, será que não se estão apenas a quebrar sob a tensão da hipocrisia social?
Lembrem-se que bocejar, um acto incontrolável, é muitas vezes visto como falta de educação.
Ou amar, quando visto por quem não o compreenda, é visto como bizarria ou demência.
Sei lá... Às vezes nada disto faz sentido.
Por isso é que procuro a dormência.
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