VÁ-SE LÁ PERCEBER

Fico aqui horas, na imaginação, que nem sempre preciso de mais.
Ou talvez não tenha capacidade para sair facilmente de um mundo que é tão vasto e maleável quanto é seguro e confortável.
Não será uma merda, este hábito, talvez dos piores a que uma pessoa se possa entregar? 
Ao mesmo tempo sabe bem aqui estar.
É como se fosse pintando continuamente o mesmo quadro, com cores e formas diferentes.
Acho que a principal razão para sair daqui é precisamente para ir buscar novas cores e ideias para que consiga manter fresco este vício.
É aqui que me sinto bem e não me parece sequer que consiga, ou queira, explicar porque não iria valer a pena.
E que espaçoso é este mundo onde me perco a me encontrar...
Consigo conjurá-lo com a mesma facilidade com que levanto um dedo.
Às vezes até com um gesto de alguém que esteja mesmo à minha frente, acedo-lhe por momentos para pintar das minhas cores o que vejo no mundo físico.
Nesses momentos partilho secretamente este mundo sem que saibam que estão presentes nele.
Se calhar até pode haver quem já se tenha apercebido disso, ou mesmo que se tenha sentido ligeiramente cá presente.
Há alturas em que sai um pouco da pintura, em palavras, e eu sinto que fica uma janela aberta.
Não para o meu mundo, mas o de quem as lê e sou eu que, daqui, para lá espreito.
Claro que compreendo tanto do que vejo como compreende quem do outro lado espreita para este mundo desconhecido.
Mas é tão libertador ver algo que não compreendemos...
Se calhar não é tão mau como às vezes parece, se pensar que me estou apenas a preparar para que, quem me veja e desconhece, estranhe o mundo que conhece.
Arrisco até pensar que é menos egoísta este lugar do que inicialmente o pensei.
Vá-se lá perceber...

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