ENTRETANTO

Carrego-vos comigo.

Os amores e desamores, 
As luzes e sombras, 
As flores e pedras
E todos os sabores.

Os cheiros apodreceram, 
E, com eles, as folhas,
Os trilhos repetidos
E os anjos que desceram.

Matou-se o intocável.

Está velha, a coluna do templo,
Mas, de certa forma, mais forte
E tem no tijolo o exemplo
Da construção da morte.

Viva o fogo e morra a água, 
Que o céu já se mudou. 
Tragam o vinho e a mágoa
Em que a fome se afogou.

Vão-se todos, quero menos.

Haja noite, mas sem sono,
Que na esperança já é Outono
E chegou a altura de lutar.

Ou talvez não seja tarde
E seja apenas o cobarde
Que precise de acordar.

Barriga cheia, alma vazia.

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