HOJE, SOU
Sou uma criatura que respira, come, bebe e dorme,
Sempre com ajuda.
Sempre com ajuda.
Sou aquele que desconhece mais que conhece.
Aquele que nunca foi, até hoje, mais que ideia.
Sou tanto o que se inveja como o que se desdenha.
Sou sonho, ainda, e esperança.
Mas também sou desilusão. Já te falo nisso.
Por agora, sou riso e sorriso.
Sou, agora, tanto do que nunca fui como do que nunca serei.
Sou muito do que uns foram e muito do que outros serão.
Ou não.
É que sou mais esperança que razão.
Sobre a tal desilusão,
Sou tanto a ausência de perdão como ódio e paixão.
Por ser esperança, sou desespero.
E sou a falta, por inteiro, de qualquer ordem e da tal razão.
Não esperes, então, de mim resposta certa, rima, ou conforto.
Sou tanto de ausência como de presença de amor, dor, felicidade, tristeza, riqueza, pobreza, mãe, pai, filhos...
É que uma caixa é uma caixa tanto pelo que lá tem dentro como pelo espaço que lhe sobra.
E a mim, quanto espaço me sobra...
E quanto espaço me há de sempre sobrar...
É que sou tanto de completo como de vazio.
Tanto de mar como de ar.
Tanto de vivo como de morto.
Sou tanto do que sei que sou como sou do que nem sei que não sei que sou e não sou.
Sou a memória do que sou.
Sou o que uns se lembram que fui e o que outros ainda não sabem que serei.
Acho que, se tivesse de explicar de forma mais simples o que sou, diria que sou um fado, que é diferente para quem o escreve, quem o canta e quem o ouve.
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