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CICLO

A velha mostra o caminho Que a nova deve seguir E aparelha, a velha, a nova Para que a nova, da sua cova, Velha se possa sentir. Ao surgir velha a antes nova, Mesmo a que o caminho desaprova,  É na cova que vai sentir Que a cova só renova O que ensinou a velha à nova Que é na cova que a agora velha, pura, vai reluzir.  Não há portanto deus nem rei Que reine acima de qualquer lei Que fuja às leis da natureza. E quando a cova não o prova É porque chegou à cova a nova Que na velha não viu clareza. Mas mesmo assim consegue a nova Sentir-se pura na cova Porque na cova, já velha, renova O sentimento que teve em nova De que é o caminho que traz pureza.

ESTRANHO MUNDO NOVO

Era suposto que o mundo girasse sempre E não só quando o teu olhar se cruza com o meu. Devia ter noção que a cor que vejo nos teus olhos É a mesma que vejo todos os dias no céu. Não sei como só sinto que o vento o é, Quando te aproximas para me dar um beijo E também não percebo porque me minto Quando acho que só te vejo quando te vejo. Tornaste-te na relação entre o que sinto e o que entendo. Já pouco é novo no que os meus sentidos sentem, Mas isso não impede que, comprometidos, fomentem A confusão que eu, inconscientemente, aceito Que me faz ficar, num mundo incompleto, satisfeito. É que mesmo não tendo o vento, ele é tão meu Quanto é tudo o que passa pelo céu. E mesmo o mundo que, sem dono, me pertence Prova que sou teu, enquanto em ti pense.

EGO MATA OU EGO MORRE

Mato o que sou para ser o que posso, Não percebendo que assim não saio do fosso De fazer da minha existência um erro crasso.   "É a minha natureza", digo em tom de batalha, Mas por orgulho falho em ver a falha Do meu pensamento de migalha. Penso de forma disfuncional Que estou acima de ser igual Ao que entendo como universal. Só quando vejo o que sou morrer, Nos troncos da árvore que fiz crescer, Percebo que não tenho poder Sobre o fruto que apodrecer, Mesmo antes de fruto ser, O que faz a árvore parecer Nada mais que o espelho Do que de mim nunca vai nascer.

A GUERRA

O grande guerreiro perdeu mais uma batalha. Nesta guerra que dura desde que nasceu, já ganhou e perdeu mais batalhas que a memória lhe permite recordar. Estas derrotas não são territoriais ou políticas. Este não é um inimigo comum. Não é um inimigo físico ou material. Não combate com armas. Não tem ideologias ou objectivos. É isso que mais frustra o guerreiro. Fosse o inimigo físico, trespassava-o com a espada. Mas cada derrota o aproximou mais de descobrir a natureza do inimigo e, mesmo sem o ver, começou a senti-lo. Começou a perceber que se o inimigo não é físico, a guerra também não. Se o inimigo não usa armas, não há necessidade de defesa. Se não tem ideologias, não há o que debater. Então que guerra é esta? Como é que o guerreiro perdia território cada vez que era derrotado em batalha? Como é que pode estar em guerra há tantos anos com um inimigo que, aparentemente, não existe? A derrota existe, é a única evidência que tem da existência de uma guerra. "Como existe uma guerra...

PASSADO E FUTURO

Ausência de pensamento, Essa que me escapa E que chega a ser tormento. Desejo fugir da azáfama E deixar-me estar só. E só estar. Estes conceitos temporais Que me impedem de me sentir E me obrigam a não parar,  São em parte culpados De eu raramente conseguir Estar só e só estar. O velho diz que é fácil, "É só um gajo não se preocupar", Mas ele dizer isso Ainda me preocupa mais E ainda me faz mais pensar E fica a mente num alvoroço.  Estou tramado.  Quanto mais penso,  Menos lógica tenho.  As regras dos outros não são para mim.  É que ao pensar de forma lógica  Encontro as falhas do velho,  Vejo na comédia a história trágica E na confusão vejo o espelho Que me impede de só estar.  De só ser. O velho tem dor no passado,  Mas consegue não pensar nela.  Tem no futuro o desconhecido,  Mas a mente dele não se rebela.  De onde vem a confiança Que usa como sentinela? E o controlo que lhe dá a paz De ser senhor e capataz do seu subc...

CARTA SEM DESTINATÁRIO

Imagino que pensei como seria Se acordasse e tu não estivesses cá. Se só cá estivesse eu. Será que, sem ti, o mundo mudaria? Provavelmente não para toda a gente, Mas com certeza mudaria o meu. E se, de repente, tivesse que escolher Entre lembrar-me de ti com dor Ou nem sequer te conhecer? Provavelmente escolheria a paz De nunca ter que saber. É que se imagino tão bem Como seria escolher, Provavelmente escolhi mesmo Nem sequer te conhecer.

O CAMINHO

O jovem pensador, de pensamento errante, Queria saber tudo quanto podia. E era, para ele, a questão mais intrigante Se era demorado o caminho para a sabedoria. O velho, sábio, conhecedor da questão, Decidiu dar a resposta complicada. O caminho para a sabedoria só depende da visão. E o jovem pensador não pensou em mais nada. Passou horas a fio Com a mente num corrupio, Não descansou Enquanto não percebeu. É que a resposta era críptica Mas a sua mente analítica Analisou E a resposta apareceu: Pensou então que seria Porque quanto mais via Mais sabia E o pensamento refinava. Não era só ver mais um dia, Era a própria mente que se abria, Enquanto fazia Como o velho e a alargava. A verdadeira questão Ia muito além da percepção Que antes tinha, Pela sua falta de senso. Nesse momento ganhou a noção, Que o caminho não era demorado, Mas que, na verdade, O caminho era extenso.