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HOJE, SOU

Sou uma criatura que respira, come, bebe e dorme, Sempre com ajuda. Sou aquele que desconhece mais que conhece. Aquele que nunca foi, até hoje, mais que ideia. Sou tanto o que se inveja como o que se desdenha. Sou sonho, ainda, e esperança. Mas também sou desilusão. Já te falo nisso. Por agora, sou riso e sorriso. Sou, agora, tanto do que nunca fui como do que nunca serei. Sou muito do que uns foram e muito do que outros serão. Ou não. É que sou mais esperança que razão. Sobre a tal desilusão, Sou tanto a ausência de perdão como ódio e paixão. Por ser esperança, sou desespero. E sou a falta, por inteiro, de qualquer ordem e da tal razão. Não esperes, então, de mim resposta certa, rima, ou conforto. Sou tanto de ausência como de presença de amor, dor, felicidade, tristeza, riqueza, pobreza, mãe, pai, filhos... É que uma caixa é uma caixa tanto pelo que lá tem dentro como pelo espaço que lhe sobra. E a mim, quanto espaço me sobra... E quanto espaço me há de sempre sobrar... É que sou tan...

O QUE É ISTO A QUE CHAMO VIDA?

É, pelo que lhe chamamos, vida. Mas o que é isto, não pelo que lhe chamamos, mas pelo que é? Uma coisa é o que é de acordo com o que se acha que é. Como a chuva, que é hoje uma benção para mim, mas foi ontem uma chatice. E não pode uma coisa ser duas? Ou mais? Uma coisa pode ser qualquer coisa, ou coisas. Só não acho que possa uma coisa ser nada. Uma coisa só poderia ser nada se ninguém dela soubesse. E, nesse caso, a coisa não existiria. É que, para existir, tem de ser algo para alguém. Mas então e o tempo? O amor? A dor? A sede? Ou outros conceitos, ou ideias? Ou o próprio conceito de ideia? Não existiam antes de serem algo para alguém? Não sente, uma pessoa, fome, mesmo que não conheça tal palavra? Ah, mas aí é que está! A pessoa não conhece a palavra, mas é afetada pelo efeito, sendo assim conhecedora do conceito. Portanto, o que é isto? Isto a que chamo de vida? É hoje o que foi ontem? Não. Será amanhã o que é hoje? Duvido. É uma questão de resposta orgânica, nunca estática, sempr...

SAUDADE

É interessante como até os sons mais básicos soam a nostalgia na viagem de volta de onde se traz saudade. O som metálico e repetitivo da vontade de ter ficado conduz a melancolia de, lentamente, ir reconhecendo o caminho de volta ao mar.

CAMINHADOR

Olá, caminhador. Tu, que pisaste a terra como poucos, conta-me, os poemas precisam de rimar? Caminhaste para te aproximares das pessoas ou para te afastares delas? Conta-me, que o tempo que me resta é infinito, mas vão. Fala-me das marcas que deixaste e de quem as recebeu. Fala-me também das que trouxeste e de quem as deu. Diz-me se a saudade ganha cheiro ou se é insípida a solidão. O que eu não dava para caminhar como tu, sem destino, ou objetivo, mas nunca em vão. Senta-te um pouco comigo e conta-me, já tens coração? Conta-me se viste tanto Poente como Nascente. Diz-me se todos os versos rimam e se doem igual a toda a gente. Descobriste se a vida é sempre uma merda, ou se, para outros, é diferente? Quantos sons conheces? Encontraste dois iguais? Com quantas cores te cruzaste? Quantas delas te iluminaram o caminho? Serviram-te as felicidades nos tempos tristes? Importunaram-te as tristezas nos tempos felizes? Viste sorrisos sem lágrimas ou lágrimas sem sorrisos? Conta...

ENTRETANTO

Carrego-vos comigo. Os amores e desamores,  As luzes e sombras,  As flores e pedras E todos os sabores. Os cheiros apodreceram,  E, com eles, as folhas, Os trilhos repetidos E os anjos que desceram. Matou-se o intocável. Está velha, a coluna do templo, Mas, de certa forma, mais forte E tem no tijolo o exemplo Da construção da morte. Viva o fogo e morra a água,  Que o céu já se mudou.  Tragam o vinho e a mágoa Em que a fome se afogou. Vão-se todos, quero menos. Haja noite, mas sem sono, Que na esperança já é Outono E chegou a altura de lutar. Ou talvez não seja tarde E seja apenas o cobarde Que precise de acordar. Barriga cheia, alma vazia.

SÓIS HÁ MUITOS

Vejo sóis a nascer a cada 5 minutos.  Vários sóis, fazem homens sempre menos astutos.  Vida triste, pé em riste do coração que vive em redutos. Maturidade dos corações que, em putos, se acham adultos. Foda-se, vida, foda-se, siga, bora dar-lhe excepções. A gente sabe que dá merda mas bora ouvir corações. Bora, chora, ri e ignora o que te faz sentir. Chora com a mesma gentileza que te faz sorrir. Põe a alma do amor na falta que ele traz.  Há a ausência na guerra assim como há a ausência na paz. Gritamos como loucos, no prazer ou na dor. Ficamos nesta por hábito, ou seja pelo que for. Escuta, já não sei se a minha vida é sem ti. Mas garanto-te que, sozinho, continuo por aqui. A ver o pôr do sol. Pesado como o nascer.  Sóis há muitos, mas o teu, eu nunca vou esquecer.  Por isso, bebo um copo à saúde que chega atroz. Rio, frio e canto até ficar sem voz.  E, afónico, canto mais um pouco a pensar em nós. Não deu, mais um sol que se pôs sem eu querer. Mas está-se ...

CARTA DO ERMO

Preferia que me conhecessem só por estas linhas que escrevo de vez em quando. Que nunca me tivessem visto andar, rir, chorar... Que nunca me tivessem ouvido cantar, gritar, amar... Preferia que não tivessem nenhuma ideia de mim que viesse de algo que não estas palavras que junto de vez em quando. É que se é para terem certezas erradas sobre quem sou, ou quem fui, ao menos que elas sejam causadas pelo que lhes trago com as linhas e não com o meu eu físico desajeitado, impróprio e inadaptado à lei silenciosa. Desconsidero que tenham tantas certezas sobre o porquê de eu fazer algo de certa forma. Daí preferir que me conhecessem só pelo que escrevo. Ao menos assim talvez não me imaginassem a ter as reações deles. Não percebem que não penso como eles? Estarão tão focados no seu eu, que não vêm a complexidade existencial do ser humano com todas as suas ramificações? Somos percepção, preferência e crença. Mas eu preferia ser só imaginação, arritmia ou indiferença.