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TEMPESTADE

O som da tempestade é o verdadeiro farol. É no abrigo dela quando, fraco, falho e range alto a caravela que o que calho a pintar na tela é a vontade de não parar. Que se parta o casco e rasgue a vela, que venha o carrasco que não a largo a ela, nem a vontade de me sarar. Que me falte sustento e visão, mas que tenha sempre alento à mão e esta vontade de respirar. Que perca o norte e o chão e que não me chame a sorte irmão nem o mar mais se faça ver, que eu pego na vela e no leme e monto os dois com a mão que treme de cansaço e resiliência. Mas mesmo que me falte a força, que de dor me contorça e não tenha mais por onde navegar, hei-de manter-me sobre o mar mesmo que me falte quase tudo, desde que não me falte a paciência.

CONTEMPLAÇÃO

Quem me dera ser capaz de viver só por contemplação. Não querer pertencer, nem agir, nem participar. Só contemplar. É como querer ser capaz de viver sem a necessidade de comer. Gosto de comer, mas gostava que não fosse uma necessidade. Que não houvesse o reverso da medalha, o "se não comes, definhas". Gosto de amar, mas gostava que não fosse uma necessidade. Que não houvesse o reverso da medalha, o "se não amas, não vives". Vem daí a vontade de querer ser capaz de viver só por contemplação. Que seja suficiente para mim que outros se amem, que outros sejam felizes e se sintam realizados. Gosto de ser feliz e de me sentir realizado. Mas não gosto do reverso da medalha. Penso que poderá não ser uma medalha equilibrada, esta. Tudo me desperta curiosidade, mas o preço é demasiado alto quando temos esta natureza. Se tudo é efémero para toda a gente, imagina o que sente alguém cujo interesse nas coisas é, ele próprio, efémero, mas ao mesmo tempo tão intenso e temporariamen...

SOLIDÃO

Procuro na dormência um lugar solitário onde possa não existir por momentos. Onde ninguém sinta rancor com coisas que nada têm de rancor. Onde ninguém ame com coisas que nada têm de amor. Onde ninguém espere de mim o que esperam, na verdade, de si mesmos. A minha vontade de isolamento não vem da vontade de estar sozinho, mas sim da necessidade de fugir à tensão que é ser gente no meio de gente que não percebe que somos todos gente normal e defeituosa. Qual é o mal disso? Deixem lá a perfeição para os deuses que não existem. A cada dia que passa percebo melhor que o que exijo dos outros serve apenas para colmatar as minhas próprias falhas. No fundo queremos todos sentir que somos algo de importante e infalível, mas será que somos tanto quanto pensamos? E aquelas pessoas que se sentem mal porque pensam não valer nada, será que não se estão apenas a quebrar sob a tensão da hipocrisia social? Lembrem-se que bocejar, um acto incontrolável, é muitas vezes visto como falta de educação. Ou ama...

À NOITE

Acabei de jantar. Tenho uma longa noite pela frente, sem horas, e por isso ponho água a ferver para o café. Sem pressa. Enquanto espero que ferva sirvo-me de mais um porto. Hoje é para relaxar. Feito o café, sento-me a observar. Tudo o que é e todos os que são vão morrendo enquanto bebo o meu café e o meu porto. Porra... Mas o que posso fazer além de observar? E, se não posso fazer nada, mais vale relaxar. Há quem já tenha ido há tanto tempo  que já nem me lembro do nome ou da cara. Há coisas que já desapareceram há tanto tempo  que já nem me lembro do que eram. Há coisas que morrem com as pessoas  e pessoas que morrem com as coisas. Se calhar eu mesmo já morri  e é por isso que me sinto apenas observador na maior parte dos dias e em todas as noites. Mas as noites são mais longas  e permitem relaxar. Isto até pode ser só um sonho. Enfim, já acabei o café.  Vou beber o meu porto enquanto imagino se alguém me observa morto.

D. TEMPO, O SEM CORAÇÃO

O homem não se expressa. O homem é a expressão Do que, peça a peça, Traz ao homem emoção. Mas não expressa o amor?  Nada mais que o sabor Da dor com que laiva De raiva o amor Que cura a raiva Que traz o ardor Com que ama e odeia, Nem sempre só por si,  Mas sempre pela odisseia.  Por mais que eu sinta, E não é que minta,  Mas o homem não se expressa.   Serve, no final, de canal Ao que sem bem nem mal, Lhe faz cada peça. Desengane-se então Quem acha ser mais Que o que faz sem perdão. E não, Não sou mais que a expressão Que, sem querer, soltarão Os homens e mulheres que morrerão Na ponta da faca sem mão Que é o D. Tempo, O sem coração.

PRAÇA ANTIGA

Final de tarde. Praça antiga. Um velho chega cansado e senta-se sozinho num banco de jardim. "Já viste onde chegámos? Lembras-te? Foi ali que te vi pela primeira vez. Estavas sentada naquele banco ao lado da roseira enquanto esperavas pacientemente que a tua mãe acabasse de pôr a conversa em dia com as senhoras depois da missa. Tinhas aquele vestido azul que uns anos mais tarde mandámos reparar para dar à filha da vizinha. A roseira já não existe, morreu há anos. E onde estava o banco onde te vi pela primeira vez e onde mais tarde te pedi em namoro, está agora uma máquina de tabaco. Se conseguisses ver o que fizeram ao jardim… Não ias gostar. Mas também não te ias irritar. Nunca te vi irritada com nada. A maior montanha deste planeta vivia no corpo da flor mais delicada, ambas em comunhão. É por isso que ainda hoje te admiram. Tinhas sempre carinho para toda a gente. E ai de que faltasse alguma coisa a alguém!  Mesmo quando estavas a sofrer, consolavas-nos para que não chorássemos...

POESIA?

Para saber explicar poesia tinha de saber pintar, que escrever não chega. Ou talvez ser um génio da filosofia, que encontre por força da lógica uma forma de a explicar. A mim parece-me que não tem explicação, mas que sei eu? O que é facto é que se estuda poesia. Mas será para encontrar o significado dos poemas, ou para encontrar, nos poemas, o nosso significado? Quando eu leio, não procuro a intenção do poeta, mas que sei eu? Não me parece que a poesia seja uma ciência em que tudo seja feito por um motivo e tudo tenha uma razão. Como é que se escreve um poema? Qual é a motivação? Será um amor perdido motivação para o poema, ou será a poesia motivação para um amor perdido? Imagino que um poeta tenha uma maior propensão para sofrer e para se alegrar facilmente, guiado pela poesia. Imagino que a poesia seja como um ser etéreo que usa o poeta para que consiga experienciar o mundo material e o poema seja a sua manifestação física. Mas que sei eu? Talvez a poesia seja tudo isto, talvez não. ...